fbpx

Diário de Bordo – Dia 11 – Chegada à Stonia

Diário de Bordo – Dia 11 – Chegada à Stonia

Décimo primeiro dia da nossa viagem. Já andamos bastante, acampamos nas montanhas geladas
e vimos bichos que nem sabíamos que existia. Rimos muito e comemos muito, porque com
frio que está fazendo, ficar em volta da fogueira contando histórias e comendo guloseimas tem
sido a melhor parte da nossa viagem.

Há uns 3 dias, avistamos uma pedra uma pedra gigante em cima de uma montanha. Em cima
da pedra, tinha algo muito colorido que não sabemos o que é: uma espécie de arco-íris de tons
pastéis, um campo de flores no meio do nada, um Caminito portenho que saiu voando e foi
parar no alto da montanha. Sei lá. Parecia que o acesso até esse local é somente a pé ou pelo
céu… se ao menos tivéssemos um jatinho particular ou um helicóptero… Mas não temos. Então
resolvemos seguir a nossa aventura, acampando de rocha em rocha, até conseguir descobrir o
que era esse emaranhado de cores.

Hoje, pela manhã, caminhando, pudemos ver de perto o que era. Eram dunas de gelo que por
algum motivo tinham adquirido tons de azul, rosa, amarelo verde, marrom claro. Até o ar por ali
era diferente: o frio insistia, mas era aconchegante, um friozinho daqueles que dá vontade de
ficar nas cobertas, de ouvir a chuva bater no telhado e ficar vendo um filme com os amigos. Um
frio bem ameno.

Fizemos a curva de nossa trilha, quase tropeçando pelo caminho, com os olhos fixos nas dunas,
tentando entender a coloração daquela neve. Me lembrou aquele parque geológico chinês, com
suas montanhas listradas — dessas coisas que só vemos na internet e depois queremos jogar
no Google Maps para ver se existe mesmo. E no fim das contas existem. Estávamos tão distraídos
que até agora eu não consigo me focar nesse relato para falar o que vimos no fim de nossa
trilha.

Bom, no fim da trilha havia uma placa, simples, manuscrita, com uma escrita delicada, mas sem
muitos floreios, onde podíamos ler: “Stonia”. Ficamos olhando para ela por longos minutos, sem
entender se fazia referência às montanhas ou a outra coisa. De repente, uma moça de cabelos
enrolados que desciam até a cintura, toda empacotada em uma roupa colorida, diferente de
tudo que já vimos, passou por ali e perguntou se estávamos procurando a entrada de Stonia.
Curiosos com o que nos reservava aquele lugar, dissemos que sim. Ela se apresentou, disse que
se chamava Lenna, e pediu que seguíssemos ela.

Depois da placa, descemos por uma escada. Na frente da pedra gigante onde estavam as
dunas, havia um vão, umas espécie de vale, enorme, que abrigava uma cidade. Não imaginávamos
que alguém pudesse viver ali. Aliás, não imaginávamos lugar nenhum como aquele. Era um
paraíso gelado. Uma paisagem ao mesmo tempo urbana e bucólica. Um vilarejo com cara de
metrópole: aconchegante, mas de arquitetura moderna, limpa. Nada de rococós. Muitas retas,
praças que formavam figuras geométricas, esculturas com materiais limpidamente transparentes
que não sabíamos se era gelo o alguma pedra preciosa que só se encontrava na região.
Estávamos fascinados.

Nesse meio tempo, Lenna perguntou se queríamos esquiar e conhecer as dunas coloridas. Não
tinha como recusar o convite. Há dias estávamos querendo entender aquela paisagem, topamos
na mesma hora, mesmo sem ter jamais calçado um par de esquis.

Pegamos um trem que passava por cima da cidade e que parava em um ponto no meio da
grande pedra que havíamos avistado de nosso acampamento. Soprava um vento brando e
que, não sabia se meus sentidos me enganavam, poderia dizer que era doce em alguns momentos
e com um cheiro gostoso de fruta em outros. O aroma ia variando de acordo com a
direção da brisa.

Nossa nova amiga fez um gesto em direção à rocha e disse orgulhosa: “Stonia”. De onde estávamos
assomavam as dunas, imponentes, majestosas e impressionantes, tanto por sua cor,
tanto por seu tamanho. Nos aproximamos. Se tivesse alguém passando por ali, com certeza teríamos
dado uma topada, porque só conseguíamos olhar para as dunas. De repente, Lenna parou a
caminhada, pegou um montinho de neve cor de rosa e fez uma bolinha. Será que ela queria começar
uma guerrinha? Em seguida, olhou para o céu e nos disse que ia chover e que seria melhor que nos
preparássemos. Coloquei minhas mãos na duna e fiz uma bolinha com uma neve alaranjada.

Ouvimos um estrondo. Do céu caía uma chuva tão colorida quanto à montanha. Era um granulado
cor de arco-íris. Olhei para frente e Lenna estava comendo sua bolinha neve toda satisfeita. Resolvi
fazer o mesmo. Nunca tinha comido algo tão delicioso. E era neve. Quem comeria neve?

Resolvemos dar uma volta por ali e experimentar os outros tons e sabores das dunas. Uma frente
fria de brownies chegou na região. Resolvemos experimentá-la também. Nossa amiga explicou que
o clima variava muito naquela região e que seria legal se ficássemos mais alguns dias para ver a pororoca:
um rio de doce de leite que se encontraria com as águas do mar de chocolate. Eu sei. É difícil
acreditar que tinha uma praia ali perto. Mas tinha. Lenna disse que nos levaria lá na manhã seguinte,
se quiséssemos pernoitar em Stonia.

E a nossa tarde foi assim. Esquecemos o esqui, esquecemos o frio, esquecemos de voltar para o
acampamento. Essa noite, vamos mesmo dormir por aqui e descobrir o que mais esse destino inesperado
nos reserva.

stonia_relatos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *